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Agentes apoiam remédio amargo para enfrentar crise hídrica

O cenário hidrológico desfavorável com reservatórios em baixa nas principais bacias do sistema interligado disparou um sinal de alerta que culminou esta semana na adoção do nível mais alto das bandeiras tarifárias: a vermelha patamar 2. O consumidor vai pagar em dezembro R$ 6,243 a cada 100 kWh consumido, o que na avaliação de alguns agentes do setor é um remédio amargo, mas necessário, enquanto para outros reflete também uma situação preocupante.

O presidente da Associação Brasileira das Empresas de Geração de Energia, Flavio Neiva, alerta que embora estejamos no início da estação chuvosa de 2020-2021, a situação do armazenamento é preocupante e deixa o setor elétrico em estado de atenção. Neiva enumera uma série de consequências caso as chuvas dos próximos meses não venham em volumes suficientes para recuperar, pelo menos em parte, os principais reservatórios do Sistema Interligado Nacional.

São elas a elevação dos custos da operação do SIN, com geração de termelétricas na base, inclusive as mais caras, por um longo período; preços de curto prazo elevados; manutenção da bandeira vermelha por mais tempo; incertezas em relação ao GSF, pela possibilidade do deslocamento de geração hidrelétrica; flexibilização de restrições hídricas nas usinas e dificuldades de manutenção no parque gerador.

Para o executivo da Abrage, janeiro é o mês mais importante para sinalizar a estação chuvosa e determinar a recuperação dos níveis dos reservatórios. Se houver uma reversão do quadro atual a partir do mês que vem, afirma, a expectativa é de que a operação do sistema transcorra normalmente em 2021.

Neiva também interpreta o aumento da carga como um sinal de retomada. “A recuperação do consumo de energia elétrica, em níveis superiores aos de 2019, alcançando mais de 73.000 MWm no mês de dezembro, sinaliza que teremos um consumo bastante aquecido durante 2021, indicando uma recuperação da economia pós pandemia”, completa Neiva.

“Acho que é uma situação preocupante, porque impacta o custo da energia. Por mais que gente queira dizer que do ponto de vista de geração não tem uma pressão muito grande por conta da pandemia e que a demanda não está alta, isso traz preocupação” avalia Charles Lenzi, presidente da Associação Brasileira de Energia Limpa.

O executivo apoia a posição do Operador Nacional do Sistema Elétrico de defender a manutenção do despacho térmico e a flexibilização de restrições hidráulicas existentes para empreendimentos relevantes do sistema. Ele também considera que a Agência Nacional de Energia Elétrica agiu corretamente ao retomar o uso do sistema de bandeiras em dezembro e critica tentativas de parlamentares de invalidarem a decisão do órgão regulador, por meio de projetos de decreto legislativo.

Para o presidente da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica, Marcos Madureira, a retomada do consumo no cenário atual traz à tona a necessidade de ter um sinal de alerta que indique ao consumidor o aumento do custo com o despacho de térmicas. Por isso, a bandeira vermelha foi disparada como uma sinalização para que a população tenha um maior cuidado com o consumo de energia e possa passar por esse momento de uma maneira mais tranquila e sem maiores sobressaltos.

O presidente da Associação Brasileira das Pequenas Centrais Hidrelétricas e das Centrais Geradoras Hidrelétricas, Paulo Arbex, afirma que a questão hidrológica não é só um problema de clima, mas também de mau uso dos reservatórios. Segundo Arbex, o volume médio de chuvas oscila de 20% a 30% em relação a média histórica ano após ano, com períodos chuvosos piores e outros melhores, mas raramente fica muito fora do padrão durante muito tempo.

Nos últimos dez a 15 anos, explica o executivo, não teve um único ano em que as hidrelétricas não tenham gerado uma porcentagem de energia maior do que a que elas tem de capacidade instalada. Isso significa que que estamos dilapidando os reservatórios, acrescenta.

Para Arbex, o grande problema é que um sistema que operou sem grandes sobressaltos durante quase 60 anos deixou de funcionar dessa forma porque a premissa de continuar construindo hidrelétricas com reservatórios foi abandonada a partir da década de 1990. Com isso, o país investiu em um matriz mais cara e mais poluente a partir das termelétricas, o que aumentou em 500% a geração de carbono no setor.

O presidente da Associação Brasileira de Investidores em Autoprodução de Energia, Mário Menel, lembra que em julho o país estava em uma situação confortável, com sobra estrutural de energia, uma hidrologia próxima da Média de Longo Termo e o melhor nível reservatórios em anos. Outubro foi o pior mês em 81 anos do histórico e, na contramão, a carga começou a se recuperar, o que é uma coisa boa do ponto de vista de economia e ruim para o setor elétrico. Isso levou ao aumento da geração térmica e à importação de energia.

Na avaliação de Menel, o grande problema é o preço, mas ainda assim ele defende as bandeiras tarifárias como um mecanismo de racionalização. “Pode ser que tenha outra medida, mas a racionalidade do preço está estabelecida. Isso é intuitivo e um fator inibidor do consumo. Acho que a medida da Aneel foi correta. Quando ela tomou a decisão de dizer [em despacho de maio desse ano] que até dezembro não teria aumento foi em um cenário favorável.”

O presidente executivo da Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Energia, Guilherme Velho, considera a geração de energia térmica para preservar o nível dos reservatórios necessária e lembra que aumento do preço é a regra do jogo há muito tempo. “Uma das funções da bandeira vermelha, além de arrecadar os recursos necessários para fazer frente ao custo do despacho térmico, é também poder sinalizar para o mercado uma condição de escassez energética”, disse o executivo da Apine, para quem a chance é a hidrologia melhorar e o despacho ser reduzido.

Fonte: Canal Energia